Era uma vez, num Sítio chamado Esperança, com área total de 5 hectares, que a nossa estória se passa. Pequena propriedade rural, incrustada no meio de um vale, onde sobreviviam, com dificuldade, um punhado de pessoas valentes, corajosas e obstinadas.
A família chefiada pelo pai, seu Antônio, tinha na figura da mãe, dona Aurora, o apoio necessário para a luta diária da vida. Os filhos, Clara e Cândida e o caçula, Joãozinho, completavam a família.
O cenário era ao mesmo tempo belo e triste. O ar puro do início da manhã e a paisagem magnífica do por do sol entre as montanhas, eram responsáveis pelos breves momentos de felicidade. Passados esses instantes de contemplação, o retorno à realidade impiedosa, era angustiante e preocupava-os quanto ao futuro. Esse temor, roubava-lhes, a conta gotas, o que de mais importante alguém pode ter, que é a esperança.
Seu Antônio e dona Aurora trabalhavam incansavelmente, da hora em que acordavam, por volta das 5 da manhã, até o momento de deitar a cabeça no travesseiro. As duas meninas iam à escola no período da manhã, e no restante do dia estavam sempre dispostas a ajudar no que fosse preciso. O menino, com o nariz, via de regra, escorrendo, brincava inocentemente no terreiro, durante boa parte do dia, sem imaginar a tempestade que vinha se formando, a tempos, no horizonte. A face triste das meninas não era pelo cansaço provocado pela lida no sítio, mas pela desconfiança no futuro. Seu Antônio fazia de tudo para não deixar transparecer suas preocupações. Como um comandante, não podia deixar que a tropa percebesse que o lider havia entregue a guerra, apesar de já ter sido obrigado, pela vida, a vender pouco a pouco, mais da metade da antiga propriedade, perto de 8 ha, para saldar dívidas. O dinheiro da venda acabou e ele estava vendo a hora que teria de vender o restante e ir embora para a cidade. “Fazer o que?” perguntava ele angustiado. Seus olhos se enchiam de lágrimas, que ele tratava rapidamente, de enxugá-las.
O sítio não era plano, mas dava para trabalhar em toda sua extensão. A terra, exaurida por anos e anos de exploração, literalmente falando, dava sinais de cansaço, apresentando baixa produtividade, sulcos de erosão e infestação de toda sorte de plantas, inclusive as indicadoras (samambaia e sapé), de que a acidez do solo era considerável. Os pastos rapados, suplicavam por ajuda. Os sauveiros e cupinzeiros multiplicavam-se por toda parte. As cercas se desfazendo, acentuavam o cenário de decadência e abandono. O córrego que contornava o fundo da propriedade, a cada ano ficava mais fraco, em função do assoreamento contínuo. As árvores iam morrendo uma a uma, em silêncio, sem que houvesse reposição. O lixo encontrado por toda a propriedade, demonstrava que o fim, era só uma questão de tempo. Eram arames farpados e latas enferrujadas, pedaços de plástico preto, resquícios de ensilagens feitas em outrora, pregos que pareciam brotar do chão, tamanha era a quantidade, tocos, troncos e galhos de árvores, mostrando que ali já houvera uma vegetação exuberante. O telhado do curral empenado, ameaçando ruir, era um perigo constante. O touro, as 7 vacas, as 2 bezerras e 1 bezerro, mantinham-se em pé, por pura teimosia. O barulho provocado pela ordenha dos 15 litros de leite por dia, feito pelas 3 vacas em lactação e suas crias, amontoadas num pequeno espaço, somado ao ruído de baldes, jatos de leite e mugidos, mais pareciam lamentos que produção.
A casa onde moravam era pequena, não tinha o conforto de um forro, nem de um sofá, tampouco de uma máquina de lavar. A geladeira, a televisão e os móveis estavam tão velhos quanto os retratos dos antepassados na parede da sala. Nos dois quartos pequenos, os sonhos transformavam-se no alimento essencial, para que amanhã levantassem para um novo dia de batalha. As roupas que usavam estavam surradas pelo tempo de uso, porque o dinheiro que ganhavam com a venda do leite e trabalhos nas propriedades da vizinhança, dava somente para a compra da comida. O problema é que ultimamente, algumas restrições quanto a quantidade de comida precisaram ser tomadas. Repetir o prato era um luxo cada vez mais raro e isso machucava os pais. Dia a dia, seu Antônio e d. Aurora, percebiam que a situação financeira se deteriorava, e que a intenção de vender mais uma vaca, deveria ser levada adiante, para pagar despesas corriqueiras. Do jeito que as coisas estavam acontecendo, ia chegar um dia que teriam que vender todo o rebanho e a propriedade, para tentar a sorte na cidade. “Mas o que fazer lá?” perguntavam entre si. “Deixar o lugar onde nascemos e crescemos. E o que será da nossa família? Onde vamos morar? Como iremos ganhar dinheiro para dar o que comer aos nossos filhos? Só sabemos trabalhar na roça! E a violência da cidade grande? E a saudade do cheiro da terra molhada pela chuva?” Choravam por dentro, angustiados pelo silêncio da falta de respostas, restando-lhes apenas, recostar suas cabeças nos travesseiros e tentar sonhar com uma vida melhor, para no dia seguinte começar tudo de novo.
Mas um dia, o amanhecer foi diferente. Parece que existia uma sensação nova no ar e um fato acabou mudando, para sempre, suas vidas...
ARTUR CHINELATO DE CAMARGOA família chefiada pelo pai, seu Antônio, tinha na figura da mãe, dona Aurora, o apoio necessário para a luta diária da vida. Os filhos, Clara e Cândida e o caçula, Joãozinho, completavam a família.
O cenário era ao mesmo tempo belo e triste. O ar puro do início da manhã e a paisagem magnífica do por do sol entre as montanhas, eram responsáveis pelos breves momentos de felicidade. Passados esses instantes de contemplação, o retorno à realidade impiedosa, era angustiante e preocupava-os quanto ao futuro. Esse temor, roubava-lhes, a conta gotas, o que de mais importante alguém pode ter, que é a esperança.
Seu Antônio e dona Aurora trabalhavam incansavelmente, da hora em que acordavam, por volta das 5 da manhã, até o momento de deitar a cabeça no travesseiro. As duas meninas iam à escola no período da manhã, e no restante do dia estavam sempre dispostas a ajudar no que fosse preciso. O menino, com o nariz, via de regra, escorrendo, brincava inocentemente no terreiro, durante boa parte do dia, sem imaginar a tempestade que vinha se formando, a tempos, no horizonte. A face triste das meninas não era pelo cansaço provocado pela lida no sítio, mas pela desconfiança no futuro. Seu Antônio fazia de tudo para não deixar transparecer suas preocupações. Como um comandante, não podia deixar que a tropa percebesse que o lider havia entregue a guerra, apesar de já ter sido obrigado, pela vida, a vender pouco a pouco, mais da metade da antiga propriedade, perto de 8 ha, para saldar dívidas. O dinheiro da venda acabou e ele estava vendo a hora que teria de vender o restante e ir embora para a cidade. “Fazer o que?” perguntava ele angustiado. Seus olhos se enchiam de lágrimas, que ele tratava rapidamente, de enxugá-las.
O sítio não era plano, mas dava para trabalhar em toda sua extensão. A terra, exaurida por anos e anos de exploração, literalmente falando, dava sinais de cansaço, apresentando baixa produtividade, sulcos de erosão e infestação de toda sorte de plantas, inclusive as indicadoras (samambaia e sapé), de que a acidez do solo era considerável. Os pastos rapados, suplicavam por ajuda. Os sauveiros e cupinzeiros multiplicavam-se por toda parte. As cercas se desfazendo, acentuavam o cenário de decadência e abandono. O córrego que contornava o fundo da propriedade, a cada ano ficava mais fraco, em função do assoreamento contínuo. As árvores iam morrendo uma a uma, em silêncio, sem que houvesse reposição. O lixo encontrado por toda a propriedade, demonstrava que o fim, era só uma questão de tempo. Eram arames farpados e latas enferrujadas, pedaços de plástico preto, resquícios de ensilagens feitas em outrora, pregos que pareciam brotar do chão, tamanha era a quantidade, tocos, troncos e galhos de árvores, mostrando que ali já houvera uma vegetação exuberante. O telhado do curral empenado, ameaçando ruir, era um perigo constante. O touro, as 7 vacas, as 2 bezerras e 1 bezerro, mantinham-se em pé, por pura teimosia. O barulho provocado pela ordenha dos 15 litros de leite por dia, feito pelas 3 vacas em lactação e suas crias, amontoadas num pequeno espaço, somado ao ruído de baldes, jatos de leite e mugidos, mais pareciam lamentos que produção.
A casa onde moravam era pequena, não tinha o conforto de um forro, nem de um sofá, tampouco de uma máquina de lavar. A geladeira, a televisão e os móveis estavam tão velhos quanto os retratos dos antepassados na parede da sala. Nos dois quartos pequenos, os sonhos transformavam-se no alimento essencial, para que amanhã levantassem para um novo dia de batalha. As roupas que usavam estavam surradas pelo tempo de uso, porque o dinheiro que ganhavam com a venda do leite e trabalhos nas propriedades da vizinhança, dava somente para a compra da comida. O problema é que ultimamente, algumas restrições quanto a quantidade de comida precisaram ser tomadas. Repetir o prato era um luxo cada vez mais raro e isso machucava os pais. Dia a dia, seu Antônio e d. Aurora, percebiam que a situação financeira se deteriorava, e que a intenção de vender mais uma vaca, deveria ser levada adiante, para pagar despesas corriqueiras. Do jeito que as coisas estavam acontecendo, ia chegar um dia que teriam que vender todo o rebanho e a propriedade, para tentar a sorte na cidade. “Mas o que fazer lá?” perguntavam entre si. “Deixar o lugar onde nascemos e crescemos. E o que será da nossa família? Onde vamos morar? Como iremos ganhar dinheiro para dar o que comer aos nossos filhos? Só sabemos trabalhar na roça! E a violência da cidade grande? E a saudade do cheiro da terra molhada pela chuva?” Choravam por dentro, angustiados pelo silêncio da falta de respostas, restando-lhes apenas, recostar suas cabeças nos travesseiros e tentar sonhar com uma vida melhor, para no dia seguinte começar tudo de novo.
Mas um dia, o amanhecer foi diferente. Parece que existia uma sensação nova no ar e um fato acabou mudando, para sempre, suas vidas...
EMBRAPA - Pecuária Sudeste
São Carlos, SP
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